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Pedagogia Iniciática - Palestra com Roberto Crema Imprimir E-mail
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Pedagogia Iniciática - Palestra com Roberto Crema
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Lembro-me de um poema de Juan Ramón Jiménez...

Não corras,
não tenhas pressa.
Aonde tens que ir
é só a ti...

 

Parece-me que esse poema, tão singelo, aponta para o coração de uma possibilidade de reencantamento do mundo, sobretudo através de uma educação que nos facilite o resgate da alma e da consciência, conduzindo-nos à exploração de nossa morada interior.

Eu devo expressar a minha alegria e gratidão por ter estado neste mesmo auditório, agora mesmo, escutando o Ubiratan d’Ambrosio, tão extraordinário educador, juntamente com Basarab Nicolescu, notável mentor da transdisciplinaridade, e Rupert Sheldrake, criador do conceito dos campos morfogenéticos.

A construção de um Sonho

Ouvindo-os, 16 anos depois da Declaração de Veneza, da qual foram signatários, não pude deixar também de, com eles, partilhar a viagem. Porque este foi, realmente, um documento redefinidor, com uma natureza iniciática. Com o brado de Veneza em uma das mãos e a Carta Magna da Universidade Holística Internacional, concebida por Weil, Leloup e Monique-Thoenig, na outra mão, documentos concebidos simultaneamente, em 1986, tivemos o suporte conceitual básico para realizarmos, apenas um ano depois, em Brasília, o I Congresso Holístico Internacional - I CHI. Este foi um evento definitivo, claramente iniciático, um marco que deflagrou a criação da Unipaz no Brasil, sob a presidência do Pierre Weil. Este é o contexto existencial criativo que me trouxe aqui, para juntos refletirmos sobre a proposta inovadora de uma pedagogia iniciática.

Lembro-me bem de meu reencontro com o Pierre Weil, portador destes notáveis textos históricos, em meados de 1986. Ele estava retornando ao Brasil, depois de um retiro de três anos e três meses, num lamastério tibetano, na França. E eu estava aguardando-o, com muita expectativa, para convidá-lo a ser presidente de um congresso de psicologia humanística e transpessoal, projeto que tinha acalentado e programado durante todo este tempo. Ao ouvir-me, ele retrucou: “Vamos muito além disso, Roberto. A palavra emergente é holística. Façamos um congresso holístico, um verdadeiro encontro da ciência com a consciência!”.

De forma imediata e total, minha alma acolheu a proposta de Pierre. Quem leu Análise Transacional Centrada na Pessoa... e mais além, que escrevi no início da década de 80, bem sabe que esta palavra, holística, consta na sua primeira página, repetindo-se ao longo de toda a obra. Na época, meu encantamento por esta visão era muito inspirado na formação que fiz em gestalterapia e, sobretudo, na teoria holística da inteligência e do funcionamento cerebral, de Lashley e Goldstein, com a sua pioneira abordagem organísmica.

“Concordo, Pierre. Vamos realizar, então, o I Congresso Holístico do Centro-Oeste!” Ao que ele respondeu: “Vamos mais longe; realizemos o I Congresso Holístico Nacional!” Entusiasmado, revidei: “Eu tenho muitos amigos na América Latina. Façamos, então, o I Congresso Holístico Latino-Americano!” Pierre bateu na mesa e sentenciou: “Não; vamos ‘pirar’ de vez: vamos realizar o I Congresso Holístico Internacional!”

Ao ler a Declaração de Veneza, encontramos lá o nome de um brasileiro, Ubiratan D’Ambrosio. Decidimos, então, realizar todos os esforços para trazê-lo e homenageá-lo em nosso congresso, o que logramos, com muita satisfação. A homenagem se estendeu a outro signatário da Declaração de Veneza, membro do Clube de Roma, Michel Random, que foi indicado por outro convidado ilustre, o próprio Basarab Nicolescu, que estava impossibilitado de comparecer ao mesmo.

Transdisciplinaridade e Samba

Desde esta época, o Brasil se tornou uma das pátrias mais fecundas da transdisciplinaridade. Recentemente, em Paris, o próprio Nicolescu me afirmou, num encontro pessoal: “O Brasil é a encarnação da transdisciplinaridade!” O encontro e fecundação das diversas etnias, uma característica de nossos fundamentos desde o início do século XVI, nos favoreceu um espírito de abertura, receptividade e de fraternidade muito especial. O português aprendeu a tomar banho com os índios e a sambar com os negros... Eis a forma mais simples que cunhei para definir a transdisciplinaridade: é sair do cacoete para o samba! Trata-se de transcender os automatismos e vícios disciplinares, a rigidez e unilateralidade de olhar e de agir, que o enfoque da super especialização nos impõe, através do resgate de todas as articulações do corpo e da inteligência. E o povo que inventou o samba pode colaborar, de uma forma bastante singular e vibrante, no seu desenvolvimento e florescimento.

Um fato interessante merece ser relembrado. Como coordenador geral do I CHI, através de um de seus assessores, soube que o ministro da Cultura de então, o Celso Furtado, estava interessado no mesmo. Gentilmente, me foi concedida uma audiência. O ministro, uma pessoa de grande cultura, que sempre respeitei muito, ouviu-me com uma escuta que me pareceu profunda e atenta. Após o meu entusiasmado discurso sobre este utópico projeto, ele afirmou, para a minha surpresa: “Este é um congresso realmente inovador. Mas ele tem que acontecer é na França, na Europa, que já chegou ao racionalismo e agora pode transcendê-lo. No Brasil, nem no racionalismo nós chegamos!...” Diante desta pérola de raciocínio cartesiano, não pude me furtar a responder: “Quem sabe não será esta a nossa vantagem, ministro? Nós estamos menos esclerosados. Nós temos menos a desaprender!”...

Foi assim que, na capital do Brasil, sonhada por um profeta e construída como uma catedral da Esperança, esta façanha foi concretizada. Com as virtudes conjugadas da cautela e da ousadia. Nicolescu nos relembra da importância da prudência, na implementação da estratégia transdisciplinar, sobretudo nas academias, ao mesmo tempo em que assevera, em seu livro, O Manifesto da Transdisciplinaridade: “Amanhã será tarde demais!” Tivemos que exercitar a boa parceria destas virtudes conjugadas, do cuidado e do atrevimento. Tivemos que aprender a dizer, em bom português e ao mesmo tempo: Oba! Oba!... Epa! Epa!

Em março de 1987, realizamos o I CHI, suportado numa abordagem transdisciplinar, com notáveis representantes da ciência, filosofia, arte e tradição espiritual. Era tocante o silêncio que reinava no auditório que reuniu cerca de mil e duzentas pessoas. Não foram poucos os depoimentos que escutei, posteriormente, sobre o impacto e o poder de transformação que este congresso exerceu na existência de seus participantes. É neste sentido que sempre afirmei a qualidade iniciática deste evento: uma iniciação a um novo aprender a aprender, que religa razão ao coração, ciência à consciência, efetividade à afetividade, existência à essência. E após todos estes anos, com a mão na massa nesta prática, é evidente constatar que a abordagem transdisciplinar nos favorece um estado intensificado de aprendizado e de evolução.

A Pedagogia do Amor

É isso que, na Unipaz, estamos realizando há quase duas décadas: o diálogo da filosofia com a ciência, com a arte, com a espiritualidade. Com uma palavra-chave que o Ubiratan D’Ambrosio bem ousou articular, no final de sua apresentação no simpósio anterior: “Isso é amor”. Religar conhecimento ao amor é o mais instigante desafio do momento. É esta a meta virtude que precisa orientar nossa sofisticada tecnociência. Como afirmou um sábio, o amor é a tecnologia mais sofisticada de todos os universos!... Sem amor não é possível reinventar e reencantar nenhum mundo, nenhuma sala de aula... Nós precisamos da pedagogia do amor, porque esta é a primeira e a derradeira lição de uma escola transdisciplinar holística da existência. Somente no dia em que aprendermos a amar total e incondicionalmente é que receberemos um certificado de humanidade plena. Esta é a Utopia Humana e estamos aqui para fazê-la florescer...

Não é difícil constatar que o desencantamento do mundo se deu através da desconexão com esta fonte de Vida, sobre a qual Teilhard de Chardin afirmava: “Quando os seres humanos domarem as ondas, os ventos, as tempestades, os furacões, quem sabe não dominarão, também, as forças do amor? Então, pela segunda vez na história da humanidade, teremos inventado o fogo!”



 
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