Skip to content

Encolher Tela Esticar Tela Aumentar Fonte Diminuir Fonte Tamanho Padrão
Liderança no Século XXI: Impactos da Passagem do Milênio Imprimir E-mail
Classificação: / 8
FracoBom 
Escrito por Roberto Crema   
Índice de Artigos
Liderança no Século XXI: Impactos da Passagem do Milênio
Página 2
Página 3

 

A menor distância entre duas pessoas é o riso e a lágrima e, às vezes, há determinados momentos onde o riso e a lágrima transcorrem ao mesmo tempo.

Jung chamaria de momentos numinosos que constelam a luz e a sombra. Parece-me que nós somos todos muito privilegiados em existir num tempo de passagem, num tempo numinoso, num tempo de tantos risos e de tantas lágrimas. Parece-me que é isso que mais pode nos aproximar e eu tenho aprendido ao longo da minha caminhada que ninguém transforma ninguém e ninguém se transforma sozinho, nós nos transformamos no encontro e sobretudo quando podemos dar expressão a essa alegria de existir, a essa biodança do universo; porém, ao mesmo tempo, quando podemos ter um coração suficientemente sensível para também chorar.

UMA CRISE ABENÇOADA: A CRISE DA CRISÁLIDA

Nós vivemos uma crise abençoada, é uma crise que nos desperta, graças a Deus e graças à dor. A crise tem uma dimensão instrutiva e é, sempre, uma oportunidade de aprendizagem, de evolução, de crescimento. Somos muito privilegiados porque essa é uma grande crise, talvez uma crise sem precedentes na história da humanidade conhecida. Eu não sei se vocês têm agradecido todos os dias por existir nesse momento: é um momento de passagem e aquilo que para algumas pessoas distraídas é a morte da lagarta, para as pessoas mais atentas é o nascimento da borboleta e é, por isso, que eu gosto de denominar essa crise de Crise da Crisálida. E, como diz um grande amigo e mestre, Jean Yves Leloup, “não é esmagando a lagarta que faremos nascer a borboleta”. Nós somos transeuntes, passageiros de um tempo de transmutação, transmutação consciencial, transmutação dos nossos valores, dos nossos conceitos e das nossas atitudes. E todos nós somos convocados para ser aquilo que nós somos. Todos somos líderes natos; todas as pessoas que eu conheci na minha existência, todas, foram e são líderes.

(...) Vivemos um tempo absurdo, onde perdemos a escuta.

Alguém perguntou a um índio de 101 anos, um Xamã, um Pajé americano:
– O que você faz?

Ele disse: Eu ensino meu povo.
– O que você ensina?
– Quatro coisas; ele respondeu.
– Primeiro, a escutar;
– Segundo: que tudo está ligado com tudo;
– Terceiro: que tudo está em transformação;
– Quarto: que a terra não é nossa, nós é quem somos da terra.

Tudo começa pela escuta. Se você não tem escuta, a crise o que é? É um azar! E você vai sucumbir porque a única crise intolerável é aquela para a qual você não tem nenhum sentido para dar; é aquela que você não interpretou e para interpretar é preciso ter uma escuta. Quando Salomão podia ter pedido tudo, ele pediu um coração que escuta e tudo o mais lhe foi acrescentado. “Eu ensino meu povo a escutar.” As escolas deixaram de ensinar os alunos/aprendizes a escutar. Isso é triste! Nestes tempos sombrios que nós vivemos, talvez esse seja o lado pelo menos que mais me leva a indignar e, também, a chorar: saber que um pé de alface em qualquer horta é melhor tratado do que os meus filhos, os seus filhos estão sendo tratados nas escolas. Você pode imaginar um horticultor exigindo de todos os seus organismos vegetais o mesmo desempenho? Você pode imaginar um horticultor comparar um tomate com um pepino e desejar que um seja como o outro, apresente o mesmo resultado? Vocês podem imaginar um jardineiro exigir de todos os organismos da biodiversidade de um jardim o mesmo currículo? Isso é um absurdo. Vocês percebem onde nós jogamos na lata de lixo nosso potencial inato de liderança, de maestria? (...) O grande problema nesse momento é o que nós na UNIPAZ chamamos de normose.

A NORMOSE: A GRANDE PRAGA DO NOSSO TEMPO

O normótico é aquela pessoa que não escuta, é aquela pessoa que está pensando só em si, é aquela pessoa que não se dá conta que tudo está ligado com tudo; que para diante de um semáforo e vê aquele bando de crianças perdidas e acha que isto não tem nada a ver com ele. Uns adolescentes matam: no Dia do Índio comemoramos o triste aniversário do mártir Galdino. Estes filhos de nossa sociedade não eram bandidos nem psicopatas, são nossos filhos; e o normótico acha que isto não tem nada a ver consigo; ele lê no jornal e se estiver tudo bem no seu canteirinho vai para sua vidinha de sempre... A grande praga do nosso tempo se chama normose. Nós estamos sendo uma espécie vivendo uma crise de quase extinção; quem diz isso são grandes cientistas que estão fazendo pesquisa de ponta, são as últimas declarações da UNESCO e do Clube de Roma. Mas o normótico não está nem aí quando se fala de problema atmosférico, quando se fala em buraco de ozônio, quando se fala no El Niño que não é mais um niño, já é um adolescente e vai continuar fazendo suas travessuras... O normótico acha que tudo isto não tem nada a ver com ele. O normótico pode chegar a ser um ministro, um governador, é... tem normóticos muito bem sucedidos, e nunca assume a responsabilidade.

A normose é a patologia da normalidade e, como dizia Jung, "só aspira à normalidade o medíocre", porque nós não estamos aqui para a normalidade, nós estamos aqui para realizar uma semente, nós estamos aqui para trazer uma diferença, nós estamos aqui para liderar e se nós não somos líderes é porque nós nos perdemos, é porque ouvimos demais papai, mamãe, a sociedade, os professores e é porque nós nos conformamos. Portanto, para falar em liderança no século XXI, nós temos que nos perguntar quais são os líderes desse momento? Por que as ideologias naufragaram? O que é um líder? Eu compreendo que um líder é sobretudo uma pessoa que aprendeu a liderar a si mesmo: você lidera seus pensamentos, seus sentimentos, suas atitudes? Você é dono de sua própria casa? E isso nos traz ao coração dessa contradição da modernidade. Nos últimos séculos nós temos desenvolvido uma ciência, uma tecnologia fabulosas, espetaculares, maquininhas fantásticas! Porém, não houve o correlato desenvolvimento das dimensões psíquica, emocional, valorativa, ética, noética e o despertar espiritual. Temos uma tecnologia e ciência incríveis, sem alma, sem coração, sem espírito, como uma espada de Dâmocles presa por um fio de cabelo sobre a cabeça da humanidade. Portanto, antes de falar sobre liderança é necessário perguntar: o que é o ser humano?

O QUE É UM SER HUMANO?

Nós não sabemos o que é um ser humano pleno (...). Não sei se vocês já conheceram um ser humano pleno, inteiro, verdadeiro. Eu receio ter que dizer que o ser humano nesse momentoé uma grande utopia, não no sentido do irrealizável, no sentido do irrealizado ou ainda não realizado, aquilo para o qual não há espaço.

Disse o Mestre: "Aos 15 anos orientei meu coração para aprender, aos 30 eu plantei meus pés firmemente no chão, aos 40 não mais sofria de perplexidade, aos 50 eu sabia quais eram os preceitos do céu, aos 60 eu os ouvia com ouvido dócil, aos 70 eu podia seguir as indicações do meu próprio coração, porque o que eu desejava não mais excedia as fronteiras da justiça". Palavras de Confúcio, há 2600 anos. Ele sabia o que era um ser humano. O mesmo que diziam os antigos Terapeutas de Alexandria, que nos inspiraram a criar, na UNIPAZ, o Colégio Internacional dos Terapeutas, cujo mentor é o Jean-Yves Leloup : “Você troca de roupa em dois minutos; leva-se uma existência inteira para trocar de coração".

O que é um ser humano? O ser humano é uma promessa. Os antigos diziam que o ser humano ainda não nasceu, que nós somos uma possibilidade. O ser humano é um potencial de florescimento. Se nós investirmos na dimensão do coração, na dimensão da alma, poderemos nos tornar seres humanos plenos. Porém, temos feito isso? Quando é que eu inclinei meu coração para aprender, aprender realmente quem sou... e comprar uma briga, nadar contra a correnteza muitas vezes. Porém, quando você se coloca no seu caminho, que é o caminho da sua promessa, o caminho com coração, então o mistério conspira por você e você evolui de uma existência perdida, alienada, para uma existência escolhida, ofertada. Portanto, essa é uma grande pergunta: – "O que é o ser humano”? E antes de falar sobre a questão específica da liderança,eu gostaria de fazer uns traços a título de indicação e, inspirando-me nesse grande irmão, Jean-Yves Leloup, para falar de algumas visões do ser humano. Não é possível saber o que é liderança, nem o que é educação, nem o que é saúde, se nós não esclarecermos nossos pressupostos antropológicos, ou seja, a visão que postulamos do ser humano porque é a partir dessa visão que diremos o que é saúde, o que é patologia, o que é uma liderança efetiva, o que é excelência humana e o que é miséria humana.

Até onde eu posso enxergar, existem 3 tipos de seres humanos:

• Aqueles que nascem e morrem piores do que nasceram - são os degenerados;

• Aqueles que nascem e morrem como nasceram - são os que mantiveram a saúde ; e

• Aqueles que nascem e se tornam quem eles são, assim como uma flor se torna uma flor, uma mangueira se torna uma mangueira - são os que aceitaram o desafio da evolução.

Quando perguntaram para Krishnamurti - que foi um ser humano pleno! - “Por que você ensina ?”, ele respondeu: “Por que um pássaro canta ?”. Eu gosto muito da provocação e sempre lembro de Abrahan Maslow, um dos pais da psicologia humanística, que dizia : "Num certo sentido, apenas os santos são a humanidade”. O resto não deu certo. Quer saber o que é um ser humano? Estude os santos, não apenas os da tradição católica; também os da tradição hindu, taoísta, xamanística, da tradição sufi, todas as tradições; e os agnósticos também (os santos sem tradição). É preciso estudar seres humanos que deram certo. E aí, lembro-me sempre dessas palavras de Teresa de Calcutá: "Santidade não é um privilégio de poucos, é uma necessidade de cada um de nós". E digo mais; nesse momento é uma obrigação de cada um de nós! Acontece que projetamos o nosso potencial em algumas pessoas especiais, o que os antigos e o próprio Maslow chamavam de complexo de Jonas, que o Jean-Yves Leloup interpreta tão bem no seu livro "Caminhos da realização". Jonas, em hebraico, significa a pomba das asas cortadas. Jonasé esse ser que nos habita e que tem medo de ser quem ele é, que tem medo de atender ao chamado. Os antigos estudavam os personagens das escrituras não apenas na sua dimensão histórica, mas também como grandes imagens, imagens estruturantes da nossa psique, da nossa existência, arquétipos diria Jung. Parece-me que Jonas é o arquétipo que precisamos estudar quando queremos falar sobre liderança, porque ele nos indica sobre o nosso desejo inconsciente da normose: como resistimos a investir no nosso potencial máximo.

O COMPLEXO DE JONAS

Jonas é aquele que foi chamado um dia: “Meu filho, desperta e vai para Nínive, a cidade grande. Lá crianças estão matando crianças, jovens matam pessoas dormindo de madrugada, pais não estão nem aí com relação à juventude, todo mundo está pensando só em si... Vai para Nínive; lá a velhacaria é consagrada, os velhacos são aqueles que têm sucesso; uma pessoa pura, inocente, em Nínive, se falar num meio político, por exemplo, vai ser ridicularizada; uma pessoa honesta, pura, de bons sentimentos é motivo de riso... tem que ser esperta, tem que ser velhaca. Jonas, vai para Nínive, porque lá um jovem, se quiser demonstrar que tem um coração bom, se quiser ser bondoso, generoso, vai ser ridicularizado; tem que dar porrada! Jonas, vai para Nínive, porque esse povo está perdido; 40 dias mais e não haverá mais Nínive !” Vocês notam que essa é uma mensagem muito atual. E Jonas foi para Nínive ? Não! Ele pegou um barco mas foi para um Társis, um local tranqüilo. Isso mostra, como nós temos uma tendência a fugir de nossas missões. Primeiro, há uma consciência interna que nos desperta, que nos coloca de pé. Pode ser uma crise, pode ser um terremoto, pode ser uma perda... há um momento em que você fica de pé. Porém, há sempre um convite sedutor da covardia e Jonas foge da sua própria promessa e, então, vem uma grande tempestade. Isso nos ensina que, quando você foge do seu próprio caminho atrairá tempestades; não só para você, também para as pessoas que estão ao seu lado.

A doença não é ruim; se você a escuta ela se torna um texto sagrado a ser interpretado. Ela tem uma mensagem: a doença é um fax que você recebe e que diz: “Você se desviou do seu caminho”. Eu levei muitos anos para aprender isso: quando nos desviamos do nosso caminho nós atraímos doenças, acidentes, nós atraímos infelicidade. Acontece que vivemos num momento tão perdido que dizemos "tomou doril..." Não interpretamos e o telefone continua tocando; às vezes em outros números até que pode ficar tarde demais. Então, Jonas que estava dormindo no porão do navio, novamente foi colocado de pé pelo capitão que indaga por que ele não está clamando por seu Deus, como todos os outros. Jonas era um fujão mas era, também, um homem sincero que me faz lembrar o poeta Omar Khayyan que inicia o seu Rubaiyat dizendo: "Todos sabem que meus lábios nunca murmuraram uma oração. Não procurei nunca dissimular os meus pecados. Ignoro se existem realmente uma Justiça e uma Misericórdia. Mas, se existem, não desespero delas: fui sempre um homem sincero.” Quem pode dizer isso? Jonas foi sincero e disse : “Eu sou a contradição, eu estou fugindo do meu Deus, estou fugindo da minha palavra, estou fugindo da minha voz mais profunda. Podem me atirar no oceano que a tempestade vai amainar.” Mas, os homens eram generosos e primeiro tiraram a sorte que apontou para Jonas.



 
< Anterior   Seguinte >

On-line

Temos 2 visitantes on-line
Topo