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PSICOLOGIA TRANSPESSOAL CENTRADA NO CORPO: REFERÊNCIAS PARA UMA PSICOLOGIA DO SER

PSICOLOGIA TRANSPESSOAL CENTRADA

NO CORPO: REFERÊNCIAS PARA UMA

PSICOLOGIA DO SER

 

Nilton Geraldo Ferreira

 

 

 

 

Breve Apresentação

 

A Psicologia Transpessoal surgiu no seio da psicologia humanista, sendo seus principais inspiradores Abraham Maslow e Antony Sutich. Eles iniciaram também o movimento transpessoal, partindo do pressuposto de que as limitações e o reducionismo das teorias psicológicas existentes deixavam de incluir grande parte dos fenômenos psíquicos usualmente experienciados pelo homem, além de não considerarem seu extraordinário potencial para o crescimento.

Essa perspectiva foi oficializada em 1968 em uma reunião da qual participaram Abraham Maslow, Viktor Frankl, James Fadiman, Stanislav Grof e Michael Murphi e, em 1969, foi lançada a primeira revista de Psicologia Transpessoal. As raízes humanistas desse movimento se estendem do existencialismo à fenomenologia, do conhecimento psicológico oriundo das grandes tradições espirituais às mais recentes descobertas da física moderna, da neurobiologia e da informática, entre outras fontes.

Definição

 

A Psicologia Transpessoal vê o indivíduo como um ser bio-psico-social-espiritual. É uma ciência que aborda o homem em seu desenvolvimento pessoal, honrando também sua necessidade de ir além do pessoal. Volta-se para o campo da pesquisa psicológica, focalizando a qualidade dos estados de saúde e bem estar.

As proposições iniciais dessa abordagem incluíam o estudo científico das metanecessidades humanas, experiências de pico, experiências místicas, crises evolutivas, espiritualidade etc. Embora essas sejam ainda áreas nobres do estudo transpessoal, tem-se caminhado para uma concepção mais abrangente do homem, com vistas à realização do sagrado no seu dia a dia.

O trans, nesta definição, é tomado no seu significado de através e além do pessoal (Cortright , 1997). Nessa vertente, busca-se integrar as principais escolas de psicologia existentes, tomando-as não como antagônicas como parecem ser, mas complementares, visto que cada uma dessas escolas trata do estudo de uma dimensão da consciência.

Honra, assim, todas as dimensões da experiência humana, interligando os aspectos já explorados pelas psicologias tradicionais a uma visão mais abrangente da psique que inclui os domínios pré-natais e transpessoais da consciência.

As experiências místicas, transegóicas, experiências do numinoso e a busca da espiritualidade estão presentes e são reconhecidas em todas as culturas ao longo da história das civilizações. No entanto, os benefícios de crescimento e bem-estar daí advindos quanto às crises e fenômenos decorrentes de tais experiências têm sido ignorados pela psicologia tradicional e tratados como desvios patológicos. Não raro são olhados com um desdém que “parece denotar certa psicofobia, um terror perante os aspectos desconhecidos da psique” (LAING apud WOOLGER, 1998). Assim, rotular torna-se menos aterrorizante que investigar.

 

Precursores

 

O estudo da consciência tem estado presente na psicologia ocidental desde seu surgimento e alguns autores que trataram inicialmente do assunto são hoje importantes referências neste campo de estudo.

O psiquiatra canadense Richard Maurice Bucke foi o primeiro a fazer uma análise intercultural da experiência que ele denominou de “consciência cósmica” para nomear um estado de consciência ampliado ou acima do estado de consciência de vigília. Seu livro Consciência cósmica foi publicado em 1901.

Pouco depois, William James, médico, psicólogo e filósofo considerado o pai da psicologia americana, tendo fundado o primeiro laboratório de psicologia experimental da América, propôs que a consciência deveria ser o objeto de estudo da psicologia. Em seu livro As variedades da experiência religiosa, publicado em 1902, é uma obra pioneira na exploração deste tema no campo da psicologia. Cabe destacar que o termo transpessoal já era usado por ele em 1905.

Carl Gustav Jung, por sua vez, incluiu definitivamente as dimensões transegóicas da consciência como objeto de estudo na psicologia. Enriqueceu o campo de estudo da mente ao incluir a noção do inconsciente coletivo, os arquétipos, a sincronicidade, além de sua abertura para a exploração do conhecimento e da sabedoria das grandes tradições religiosas e de metodologias de conhecimento como a Alquimia e o I Ching. Esse autor resgatou para a psicologia o inconsciente como fonte de riqueza e crescimento e não apenas como um lugar onde escondemos nossa sombra e nossos impulsos mais negativos.

 

Psicologia e Espiritualidade

 

A Psicologia Transpessoal reconhece a espiritualidade como parte autêntica e legítima da psique. O estudo sistemático do significado dessa dimensão da consciência visa, portanto, compreender a influência dos fatores espirituais, bem como os efeitos psíquicos e emocionais na pessoa.

A literatura produzida tem revelado que, ao longo da história, diferentes culturas têm gerado tradições religiosas e iniciáticas e produzido um vasto conhecimento sobre a psique humana e seus diferentes estados. Sistemas de conhecimento milenares como o Yoga índiano, a Psicologia Budista Tibetana, o Zen Budismo, a Cabala, o Sufismo e a Alquimia, entre outros, podem ser vistos como teorias da personalidade com sistemas e metodologias experimentais de transformação e crescimento pessoal.

Todo o conhecimento relativo à mente e aos estados diferenciados de consciência adquirido por essas culturas tem sido negligenciado e interpretado como subproduto cultural pela psicologia ocidental.

Segundo Roger Woolger, em As Várias Vidas da Alma, temos para culturas estranhas à nossa, um olhar “etnocêntrico” – baseado nos valores referenciais e padrões adotados por nossa própria cultura, naturalmente superior [...].

No dizer de Daniel Coleman (1999, p. 32),

 

[...] nossa psicologia formal tem menos de 100 anos de idade, representando assim uma versão recente de um esforço que provavelmente é tão antigo quanto a história da humanidade. Além disso, ela é produto da cultura, sociedade e história intelectual de europeus e norte-americanos, e, por isso, é apenas uma dentre inúmeras ‘psicologias’ [...], cabe a nós encararmos esses outros sistemas [...] como lentes alternativas através das quais podemos vislumbrar coisas que nossos próprios pontos de vista podem tornar obscura.

 

Importante nesta discussão é a necessidade de distinguir religião de espiritualidade.

Religião é um conjunto de crenças formalizadas dentro de uma estrutura que tem uma ética, dogmas e rituais próprios, com um determinado número de seguidores. Já espiritualidade é uma dimensão natural da psique um anseio pessoal de se conectar com uma realidade profunda do seu ser que não tem, necessariamente, de estar associado a nenhuma crença religiosa (SCOTTON, CHINNEN, BATTISTA, 1996).

Como qualquer exploração do mundo exterior, a exploração do espaço interior envolve riscos e perigos. Assim, também, pode trazer riscos à saúde do indivíduo negar esse anseio. Ao contrário do que usualmente se pensa, não existem garantias de paz, tranquilidade ou de um estado de espírito “zen” para quem se aventura a buscar um caminho espiritual. O aprendiz está sujeito a enfrentar sérias complicações psicológicas e físicas. Basta lembrar o relato da vida e dos sofrimentos dos grandes místicos, santos e profetas da história. Todos esses seres que inspiraram e continuam a inspirar os melhores propósitos e princípios éticos para a humanidade são hoje vistos e diagnosticados pela psiquiatria como sendo psicóticos, esquizofrênicos, indivíduos que sofriam de severas crises histéricas.

Obviamente, crises evolutivas podem acontecer a qualquer pessoa, mesmo que ela não esteja envolvida em buscas de crescimento espiritual. Por isso mesmo, estudo dessas questões não deveria desencadear a aversão paranóica que causa no ambiente acadêmico.

Segundo Pierre Weill, uma das principais patologias que afligem o homem atual é a “resistência ao transpessoal”, ou seja, tudo que lembre o irracional, o oculto, o religioso é imediatamente rejeitado.

O Código Internacional de Doenças (CID-10, Item F44. 3) faz um diagnóstico diferencial entre crises psicóticas e estados de transe e possessão. Assim, a Associação Psiquiátrica Americana alerta os médicos para que façam diagnóstico diferencial entre psicose e o quadro de pessoas de determinadas comunidades religiosas que podem apresentar, entre outros, fenômenos mediúnicos. Nesse sentido, a Psicologia Transpessoal criou o termo Emergência Espiritual para estudo e diagnóstico diferencial entre as experiências dramáticas e estados mentais incomuns vivenciados por pessoas que passam por crises evolutivas e as crises psicóticas ou distúrbios mentais clássicos (CORTRIGHT, 1997).

A aceitação das necessidades espirituais intrínsecas da natureza humana torna possível a compreensão de uma classe de patologias, oriundas da não satisfação ou não realização dessas capacidades, denominadas por Maslow de metapatologias.

Destarte, o potencial terapêutico das experiências que acontecem nos ampliados de consciência ultrapassa qualquer abordagem que trabalhe focada apenas na história biográfica das pessoas.

 

As experiências transpessoais podem com freqüência [...] produzir drásticas e duradouras mudanças psicológicas de caráter benéfico. Podem resolver dilemas existenciais e inspirar um interesse compassivo em relação à humanidade e ao planeta. Uma única experiência transpessoal pode, com efeito, mudar para sempre a vida de uma pessoa. Além disso, a ausência de tais experiências pode estar por trás de uma parte considerável das patologias individuais, sociais e globais que nos cercam e ameaçam (WALSH; VAUGHAN, 1993, p. 22).

 

Anos de divã e a angústia não se finda.. Esse anseio por algo que parece faltar leva as pessoas a buscas infrutíferas no álcool, nas drogas, nos shoppings, por mais dinheiro ou por sucesso; é o sintoma de carência de totalidade, falta de completitude, de conexão com uma dimensão maior de nosso ser. Assim Jung descreveu o caso de uma cliente: “O seu anseio pelo álcool era o equivalente, num nível inferior, da sede espiritual do nosso ser pela totalidade, expressa em uma linguagem medieval: união com Deus” (JUNG apud GROF, [s.d.], p. 11).

 

Consciência

 

Existem diversas cartografias da consciência criadas por diferentes autores que buscam mapear o universo da mente. Visam a auxiliar os profissionais e indivíduos envolvidos na exploração dos espaços interiores no sentido de obterem maior compreensão e entendimento dos fenômenos que ocorrem em estados diferenciados de consciência. Ponto comum em todos eles é o reconhecimento da existência de amplo espectro de estados transegóicos.

Desse modo, a pesquisa sobre estados mentais não usuais tem trazido contribuições significativas para a compreensão de desordens emocionais e psicossomáticas, gerando novas metodologias e eficazes técnicas psicoterápicas. Os modelos de consciência propostos por tradições milenares como o Budismo Tibetano, o Sufismo, o Taoísmo, a Cabala e o Cristianismo diferem radicalmente da crença de nosso modelo materialista científico que concebe a consciência como um epifenômeno do cérebro. Segundo Grof (2010), “Não existem teorias científicas que expliquem como a consciência é gerada pelo cérebro”.

O conhecimento advindo dessas tradições aponta para um modelo não local da consciência, segundo o qual, longe de ser produto do cérebro, ela é um princípio primário da existência. Esta assertiva está no âmago do que Aldous Huxley chamou de “filosofia perene”, conhecimento geral sobre a natureza da humanidade e da realidade, presente em todos os caminhos de crescimento espiritual. Já para Wilber (1995, p. 630), a consciência é “Uma verdade que pode ser conhecida (por meio da identidade intuitiva direta e sem forma), mas que nunca poderá ser capturada de uma maneira adequada e completa, em qualquer forma, doutrina, sistema, filosofia... (todos apenas reflexos parciais, temporais e finitos.

Para essas tradições, a consciência é um aspecto do Absoluto ou da mente universal. Tais enfoques têm encontrado respaldo nas mais recentes suposições da física quântico-holográfica que propõem um modelo holoinformacional da consciência, asseverando sua não-localidade.

A concepção de mente da Psicologia Transpessoal, além dos estados biográfico e pós-natal da consciência, inclui os perinatais (relacionados ao trauma do nascimento e vivências intra-uterinas) e o estado transpessoal (memórias ancestrais, filogenéticas, memórias coletivas, arquetípicas, experiências cármicas etc.).

A esse respeito, existe um farto material resultante de pesquisas e experiências clínicas que fundamentam uma concepção ampliada da mente o qual se encontra disponível para os estudiosos. A maior dificuldade de se investigar estados incomuns de consciência tem sido, entretanto, a questão de método, de se ter um enfoque apropriado para cada categoria. Investigar a consciência, segundo a metodologia da lógica cartesiana, seria incorrer num erro de categoria, como alerta Wilber (1995) ao dissertar sobre os “três olhos” descritos por São Boaventura.

Segundo São Boaventura, os homens dispõem de três modos de aquisição de conhecimento (WALSH; VAUGHAN, 1999). O olho da carne, que seria a nossa percepção sensorial, responsável pela percepção do mundo exterior, o espaço-tempo e objetos materiais; o olho da razão ou olho da mente, por meio do qual adquirimos os conhecimentos mentais – filosofia, religião, ciências – e o olho da contemplação, pelo qual podemos ter acesso às realidades transcendentes. Cada olho tem seu próprio raio de ação, de percepção da realidade. Um erro de categoria se dá quando um olho tenta abarcar ou “interpretar” o conhecimento do outro. Cada olho tem o seu próprio espaço de atuação. E quando um olhar tenta interpretar algo que não está em seu domínio, terá sempre uma visão distorcida.

Nesse sentido, Charles Tart (1993) prega a necessidade de se criar uma ciência específica para cada estado de consciência visto que o método científico orientado pela visão do materialismo científico tem se limitado ao estudo do que é percebido pelo olho da carne.

 

Nível Perinatal da Consciência

 

As memórias perinatais envolvem as experiências vividas pelo feto durante o processo de nascimento. Constituem o trauma mais dramático e intenso da vida de uma pessoa. Esse estresse vivenciado emocional e fisicamente supera qualquer outro vivido na infância do individuo As psicopatologias mais graves enfrentadas pela pessoa adulta são de origem perinatal. Depressão suicida, claustrofobia, tendências destrutivas, pânico, enxaquecas, assim como uma vasta variedade de desvios e distúrbios sexuais têm origem no processo do nascimento.

Existe uma extensa pesquisa sobre a etiologia das psicopatologias realizadas por Stanislav Grof indicando a origem perinatal da grande maioria dos distúrbios emocionais.

 

Autoimagem

 

Um ser humano cresce morrendo para uma imagem dele mesmo, é um processo de morte e renascimento. Morro para um estado de mim mesmo com o qual me identifico, para ter acesso a um estado de consciência mais elevado. É preciso ir além do que Freud chamou de superego ou que Jung chamou de persona. (Jean Yves Leloup)

 

Na perspectiva transpessoal, a personalidade é vista como um aspecto do ser, sendo saudável que a pessoa como um todo não se identifique exclusivamente com ela. Diferentemente da maioria das psicologias, a abordagem transpessoal não considera a necessidade de termos uma forte identificação com nosso ego como sinal de saúde mental. Outrossim, leva em conta que a maior fonte de sofrimento advém de nossa tentativa de preservação do eu, de nosso apego a uma autoimagem construída. Criamos o ego a partir de uma síntese adaptativa entre nosso mundo interior e a realidade vivenciada exteriormente.

Nossa identidade egóica é, portanto, algo construído. Não é uma parte inata de nosso ser, pois vamos agregando experiências, construindo nossa identidade ao longo do tempo. Ela advém da nossa relação com o mundo externo. Criamos a ilusão de que o ego é algo sólido e a ilusão da continuidade do nosso “eu” ao longo do tempo, o que nos dá a sensação de “sermos” alguém. sustentar uma estrutura constante é uma ilusão que causa sofrimento e paralisias. No entanto, sabemos que a posição oposta – a ausência da percepção de um eu integrado – está na base de psicopatologias graves como, por exemplo, as psicoses simbióticas e outras síndromes regressivas, sendo que, tais patologias advêm da falta de um ego estruturado.

Ken Wilber (1995) chama a atenção para a falácia pré/trans e para a confusão que pode ocorrer ao se tomar por transpessoais estágios de desenvolvimento que estão ainda no nível pré-pessoal. “A questão do desenvolvimento pessoal não é o “eu ou o não eu, mas o eu e o não eu” (ENGLER apud WALSH; VAUGHAN, 1999, p. 1-21). O desenvolvimento vai do estágio pré-pessoal ao pessoal e daí ao transpessoal. Como os níveis pré-pessoal e transpessoal são não pessoais, costuma-se tomá-los por idênticos. Assim, fenômenos regressivos, síndromes simbióticas e estados de indiferenciação do eu, anteriores ao desenvolvimento do ego, não podem ser tomados por experiências transpessoais da consciência.

Não é o desaparecimento do ego que está em questão na visão transpessoal, mas a identificação com suas representações. Por isso, o tema da autoimagem é um dos mais caros para a Psicologia Transpessoal. Como nos identificamos com um eu construído a partir de representações mentais, também interpretamos a realidade de acordo com elas. Como tais representações influem na percepção que temos da realidade, tornamo-nos reféns de uma realidade percebida a partir de um estado de consciência limitado.

A compreensão desse modelo possibilitou a criação de técnicas de “morte e renascimento do ego” que facilitam ao indivíduo uma desidentificação com sua autoimagem. Via de regra, grande parte do sofrimento humano é causado pela percepção que a pessoa tem de si mesmo e do mundo exterior. Esta desidentificação possibilita um estado de consciência mais elevado e menos limitado, possibilitando a abertura para outras percepções da realidade.

De conformidade com Weill (1993), “A visão da realidade é função do estado de consciência”. Num estado de consciência ordinário nós percebemos o universo como sendo uma miríade de objetos separados entre si. Esta é a visão da física clássica formulada por Isaac Newton, onde o universo é percebido de uma maneira basicamente dualista. Esta concepção alicerçada na fundamentação filosófica de René Descartes que postulou o universo como sendo dividido em duas realidades básicas: a mente (res cogitans) e a matéria (res extensa) nos trouxeram a crença nacc “realidade objetiva cientifica”, e a percepção da matéria como sendo algo morto. Este paradigma causou um impacto profundo na a ciência e no pensamento ocidental, trazendo um fantástico conhecimento e desenvolvimento tecnológico. Porém, um método científico elaborado para estudar a realidade passou a determinar o que era real. Instaurou-se o domínio da razão, exorcizando-se as outras maneiras de apreensão da realidade.

Este enfoque reproduz a maneira como o homem experiencia a realidade no estado de consciência ordinário, onde este se percebe como basicamente separado do universo. Ele se vê como uma identidade pessoal, desconectado de sua consciência cósmica original. Passa a acreditar que esta identidade, muito útil para lidar num estado de vigília é a realidade final.

E quanto mais reforço e me identificou com esta imagem de mim mesmo, mais perco a consciência da minha totalidade, de minhas relações ecológicas e cósmicas. Onde há fronteira existe o medo, diz a sabedoria do Upanishads. E quanto mais cuidamos de reforçar nossas defesas, mais criamos couraças e barreiras protetoras, mais nos isolamos e aumentamos o medo...

 

Além do Corpo

 

Considerando a união do macrocosmo com o microcosmo, na tradição hebraica, o corpo é uma representação da árvore da vida, um holograma do universo. Cada ínfima parte do corpo humano traz em si a consciência do todo e a memória de quem somos. Ele conta a nossa história. Sem a consciência e a disciplina do corpo e de nossas energias vitais não podemos aspirar crescimento espiritual. O enfoque transpessoal centrado no corpo orienta-se pela necessidade de ancorar a vida espiritual numa base material.

As psicoterapias transpessoais com abordagem corporal enfatizam o trabalho corporal como via de crescimento pessoal e transpessoal. A pessoa é vista em sua totalidade bio-psíquico-espiritual. Em comum, todas elas provêm de uma linhagem que levam a Wilhelm Reich e se identificam na necessidade de que a vida espiritual deve ter suas raízes em uma base material. Assim sendo, a busca do sagrado passa, necessariamente, pelo resgate do corpo que é a parte da natureza renegada em nós.

O enfoque corporal trata, em última instância, da unicidade entre energia e consciência.

 

Energia e Consciência

 

Energia e Consciência formam a essência da vida. No corpo humano, quando a energia se move no sentido cabeça pés, ela se move no sentido da corporificarão, individualização e enraizamento. Esse movimento cria em nos a capacidade de lidar com o mundo material. Propicia-nos segurança básica, autoconfiança. Daí o conceito de grounding, desenvolvido pela bioenergética, entendido como a capacidade da pessoa de entrar em contato consigo mesma e com o mundo ao seu redor, de poder assumir responsabilidade por sua vida e seus sentimentos. Já o movimento energético no sentido dos pés à cabeça propicia o contato com nossos centros perceptivos, com a percepção que temos de nós mesmos e do mundo ao nosso redor, com os níveis superiores de consciência e os níveis espirituais.

 

Do ato da Percepção de Si Mesmo e do Mundo ao Redor

 

Uma vida espiritual plena passa, necessariamente, por um desenvolvimento psicossexual saudável. Se a pessoa está bloqueada e inconsciente a respeito de si mesma será, consequentemente, incapaz de obter sentimentos de plenitude sexual e espiritual, intrinsecamente ligados ao corpo. Talvez, como resultado da negação do corpo, influenciada pelo cristianismo, no ocidente, a espiritualidade é considerada uma função da mente, enquanto no oriente ela é considerada a partir de uma perspectiva energética corporal.

Tendo em vista esse entendimento, Reich realizou uma síntese entre a fisiologia e a psicologia. Para tanto, uniu os processos mentais e somáticos e colocou o trabalho com o corpo fundamental para a saúde emocional da pessoa. Para Reich, a realidade pura é movimento. Esse autor tornou-se um precursor da visão integrativa holística que embasa o enfoque transpessoal ao criar o pensamento funcional, chamado por ele de Funcionalismo Orgonômico, orientado pela visão de que todas as coisas funcionam em relacionamento e pelo modo como elas se relacionam. Concluiu que a terapia de orientação puramente verbal não tinha  poder de acessar nem de lidar com bloqueios bioenergéticos profundos. Resgatou para a psicoterapia o poder de cura da respiração. A respiração tem sido usada ao longo da historia em praticamente todos os sistemas de autoconhecimento e crescimento psicológico. Sendo um ato involuntário que pode ser também voluntário, ela é capaz de fazer um elo entre o consciente e o inconsciente, entre o corpo e a psique, entre o psíquico e o espiritual. Esse assunto foi desenvolvido pelo médico e psicoterapeuta José Lopes (2007) em seu artigo intitulado “O paradigma reichiano e a psicologia transpessoal: dois caminhos que se encontram”.

Remontando à antiga Grécia, temos que o ar ou sopro era denominado de pneuma, significando tanto o ar que respiramos como o sopro divino, o espírito.

Reich foi, também, o primeiro cientista moderno a pesquisar e realizar experimentos científicos, demonstrando a existência do que há muito era chamado de energia cósmica universal, de prana, chi, pneuma etc. Denominou-a “orgone”, decorrendo daí o termo orgonomia, que vem a ser o estudo das leis da energia vital, e de sua atuação no organismo vivo, de como sua interrupção pode acarretar distúrbios no soma e na psique. Para Reich, a energia orgon é criativa e, no ser humano, indissociável na tomada de consciência do EU.

Essa força vital se manifesta não apenas no nível psicológico, mas também nos níveis biológico, físico emocional e espiritual. Segundo esse autor, o orgone é a energia que preenche todo o Universo. Presente não apenas nas coisas vivas, mas em todos os lugares do cosmos, é universal, pré-atômica e forma toda a matéria.

Reich tomava o ser humano em sua integridade, já a Psicoterapia Transpessoal Centrada no Corpo tem em vista a totalidade do ser. O cerne do nosso ser é o centro do universo, onde encontramos nosso verdadeiro Self.

O trabalho centrado no corpo permite a integração das teorias e abordagens terapêuticas diferentes já que, através do corpo, podemos acessar diferentes dimensões da consciência.

 

Na língua hebraica, todas as partes do corpo humano são hipostasiadas e dotadas de atributos psíquicos e espirituais. Cada parte do corpo humano leva em si uma consciência do verdadeiro Eu e de sua unidade (MIRANDA, 2000, p. 11).

 

Trabalhando com os Sintomas

 

Toda perturbação emocional, como angústia, depressão, ansiedade, sentimentos de vazio, confusão mental, se manifesta no corpo, assim como os bloqueios corporais expressam paralisações em nossa capacidade de sentir e expressar. 

Se nos “entregamos” ao corpo e nos permitimos ouvi-lo, focando a consciência nos sintomas emergentes, ele se desvela nos conta a sua história.

De modo simplificado e metafórico, um sintoma é como uma luz vermelha que se acende no painel do carro, uma sinalização de que algum mecanismo não está funcionando bem: “ouça-me, diz o corpo através dos sintomas”. Se entrarmos em contato com estes sinais, buscando entendê-los e superá-los, eles podem revelar-se diante de nós, trazendo conflitos e episódios vividos em nosso momento atual, como por exemplo: uma tensão ligada a um sentimento ou emoção não expressos, uma negatividade criada pela agressividade ou sexualidade reprimida, pela negação de sonhos, pelo recalque do feminino, pelo esquecimento de quem somos.

Esses sinais podem estar conectados a padrões de defesas de caráter há muito estabelecidos na pessoa. Podem conter memórias ligadas ao campo rememorativo biográfico e ao inconsciente individual, assim como definido por Freud, ou a outros níveis de consciência, como interrupções e feridas oriundas do nosso inconsciente perinatal ou arquetípico. Como mencionado, toda agressão e stress vividos durante as fases primitivas do desenvolvimento humano geram, em nosso organismo, reações energéticas específicas que futuramente podem eclodir em sintomas.

Segundo Federico Navarro, as bases energéticas das doenças graves e “incuráveis”, as denominadas biopatias primárias estariam relacionadas ao stress vivido nos primeiros meses de desenvolvimento fetal humano. Biopatias secundárias que levam a doenças graves e geralmente curáveis estariam também relacionadas ao período de vida intrauterino. E as doenças somato-psicológicas, como gastrites, úlceras, seriam relacionadas aos acontecimentos estressantes ocorridos no período da infância. E somatizações ligadas a fortes acontecimentos emocionais (paralisias histéricas etc.), seriam ligados a acontecimentos traumatizantes vividos da puberdade em diante.

Já as psicopatologias e sintomas psicossomáticos podem também estar ligados a fatores oriundos de quaisquer umas dessas dimensões ou a todas elas ao mesmo tempo.

Ante o exposto, a moderna pesquisa da consciência e o trabalho experiencial têm demonstrado que temos um tipo de memória que abarca todo o período de desenvolvimento fetal. Quando um sintoma ou distúrbio emocional está ligado a mais de uma dessas dimensões, formam um sistema COEX, conforme a definição dada por Stanislav Grof, a seguir. COEX é uma

 

constelação dinâmica de memórias (e material de fantasia associado) de diversos períodos de vida do indivíduo, cujo denominador comum é uma forte carga emocional da mesma qualidade, uma intensa sensação física de um tipo específico, ou elementos adicionais importantes em comum (GROF, 1987).

 

De acordo com a teoria do EMDR – Dessensibilização e Reprocessamento Através do Movimento dos Olhos - tais constelações dinâmicas são definidas de Redes Neurais. Por isso, quando um sintoma emerge, ele pode nos trazer um tema surgido de qualquer uma ou de várias dessas dimensões. E, sobretudo, o corpo traz a memória de quem somos.

As psicoterapias transpessoais são de caráter experiencial. O psicoterapeuta é um companheiro de viagem; o condutor, o verdadeiro terapeuta, é o curador interno de cada um. É a capacidade inata que cada ser humano tem de curar a si próprio.

As experiências abrem-se para o campo fenomenológico em que o terapeuta precisa estar em ressonância com a necessidade do cliente. O terapeuta holocentrado há de ser um “analista e sinteticista”, na visão unicorniana de Roberto Crema (1995).

Nessa direção, o homem possui uma espiritualidade natural que é o seu anseio de unir-se (religião = re-ligare) à totalidade de sua existência. Quando busca uma religião ou psicoterapia, em geral, o que se tem encontrado são sistemas de crenças dogmáticas e teorias psicológicas reducionistas que acabam por negar o que há de único em cada um. Ultrapassando a região habitada por nossos instintos mais cruéis e demoníacos encontra-se nossa verdade, nossa capacidade de amar, de sermos solidários e compassivos.

Para além de uma realidade fragmentada e sem propósito, a vida pulsa! Toda vida pulsa em consonância das células de cada corpo às estrelas mais distantes. Todo o Universo pulsa em um movimento consciente. A jornada interior é uma viagem ao centro do universo, onde encontramos nosso verdadeiro Self.

 

Referências

 

CID-10. Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento da CID-10: Descrições clínicas e diretrizes diagnósticas – Coord. Organização Mundial da Saúde. Tradução de Dorgival Caetano. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.

 

COLEMAN, D. Psicologia , realidade e consciencia In: WALSH, R.; VAUGHAN, F. (Orgs.). Caminhos além do ego. São Paulo: Cultrix, 1999.

 

CORTRIGHT , B. Psychotherapy and spirit. New York: State of New York Press, 1997.

 

CREMA, R. Saúde e Plenitude. São Paulo: Summus, 1995.

 

EVARISTO Eduardo de. Apud Miranda. Corpo, Território do Sagrado. Ed. Loyola, 2000.

 

GROF, C. Sede de Plenitude: apego, vício e o caminho espiritual, [S.l.:s.n.].

 

GROF, S. Além do ego, nascimento morte e transcendência em psicoterapia. São Paulo: McGrawHill, 1987.

 

GROF, S.: GROF, C. Respiração Holotrópica: uma nova abordagem de auto-explorarão e terapia. Rio de Janeiro: Capivara, 2011.

 

JUNG apud GROF. Sede de Plenitude, [S.l.:s.n.].

 

LELOUP, Jean Ives. Além da Luz e da Sombra, 2001

 

LOPES, José. O Paradigma Reichiano e a Psicologia Transpessoal: dois caminhos que se encontram, 2007.

 

NAVARRO, F. Somatopsicodinâmica das Biopatias. Rio de Janeiro: Dumara, 1991.

 

SCOTTON , B.; CHINNEN, A.; BATTISTA , J. (eds.). Textbook of Transpersonal Psychiatry and Psychology. New York: Basic Books, 1996.

 

TART , C. Caminhos Além do Ego. São Paulo: Cultrix, 1999.

 

WALSH , R.; VAUGHAN , F. Caminhos além do ego. São Paulo: Cultrix,

1999.

 

WILBER , K. O olho do espírito. São Paulo: Cultrix, 1995.

 

WOOLGER , R. As várias vidas da alma. São Paulo: Cultrix, 1998.

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